Você sabe qual é o papel do vereador na câmara
municipal?
Sidnei Varanis
O vereador deve ser o político que acompanha o dia-a-dia das
comunidades e, por isso, precisa conhecer de perto suas
necessidades e buscar providências junto aos órgãos
competentes. Vereadores existem para representar os cidadãos
dos seus municípios. A Câmara, no exercício de sua função
legislativa, participa da elaboração de leis de interesse do
município.
A função legislativa é a que mais se destaca entre as
funções da Câmara. Por meio das leis, os cidadãos têm seus
direitos assegurados. Além disso, as leis também são
importantes para a harmonia entre os Poderes, orientam a vida
das pessoas e dirigem a administração pública.
Mas não é só isso. Cabe-lhe também a função de
fiscalizar as contas do Poder Executivo Municipal e do próprio
Legislativo.
Um dos pré-requisitos básicos da democracia é a existência
de um Poder Legislativo forte e realmente independente. Sem
isso, a democracia é deficiente, capenga. No Brasil, apesar das
leis falarem claramente em "poderes independentes e
harmônicos entre si", ainda falta muito para que isso vire
realidade.
Sabemos, por exemplo, que um Prefeito só pode fazer o que
estiver permitido pelas leis, ou seja, ele não pode fazer nada
que a lei não autorize. Por isso as normas municipais são tão
importantes para o funcionamento da cidade.
Através da função fiscalizadora, é possível ter um
controle de como o Prefeito e os Secretários estão
administrando o município, utilizando os recursos públicos. A
Câmara deve cumprir esta importante função com o auxílio do
Tribunal de Contas. Cabe aos vereadores acompanhar todas as
ações do Executivo: realização de obras, compra de material
e de equipamentos, contratação de funcionários, prestação
de serviços, fornecimento da merenda escolar, etc...
Os Vereadores podem solicitar que o Prefeito ou qualquer
Secretário municipal que compareça à Câmara para dar
explicações sobre os seus atos. Caso queira apurar alguma
irregularidade, a Câmara pode formar uma Comissão Parlamentar
de Inquérito (CPI). Anualmente, o Prefeito deve remeter as
Contas do Município para os Vereadores apreciarem e após o
parecer do Tribunal de Contas, voltam para a Câmara para serem
votadas. Essa prestação de contas deve conter todos os gastos
realizados (pagamento de servidores, compra de materiais e
equipamentos, manutenção de escolas e hospitais, obras
realizadas, etc...) e também todo o dinheiro arrecadado durante
o ano.
Por fim, os Vereadores devem observar atentamente como estão
sendo aplicados os recursos públicos. A Câmara exerce uma
função judiciária, porque cabe a ela processar e julgar o
Prefeito quando ele cometer alguma irregularidade. E julga os
próprios Vereadores que também cometam irregularidades. Todos
os anos, os Vereadores julgam as contas da Prefeitura, decidindo
se o Prefeito teve uma atuação REGULAR ou IRREGULAR na
aplicação dos recursos públicos.
Nas pequenas cidades, principalmente nas de baixo nível
educacional, a concentração do poder político ainda tem como
conseqüência imediata à construção e manutenção de
currais eleitorais. Mesmo contando com diversos movimentos
sociais que se organizam, os moradores não são protagonistas
na resolução de seus próprios problemas. Quando a população
demanda a realização de uma obra pública, não há outra
alternativa senão buscar o apadrinhamento de um vereador. Isso
é histórico. Não deveria ser desta forma.
Alguns parlamentares, principalmente os que apóiam o
prefeito, se colocam como a principal porta de acesso aos
recursos da prefeitura. Por outro lado, o Executivo se ver na
obrigação de fazer concessões clientelísticas para evitar o
surgimento de dificuldades políticas que colocam em risco a sua
governabilidade. De onde sai o dinheiro para tais favores
políticos? o vereador não quer saber, visto que o mais
importante é manter seu eleitorado satisfeito.
E aqui fica a pergunta: será que o vereador que presta apoio
político incondicional ao Prefeito em troca de
"benefícios" pessoais, exercerá livremente a
função de fiscalizá-lo? Não. E é isso que acontece na
maioria das cidades brasileiras. Isso precisa ser mudado.
Vereador deve ser independente, atuante, polêmico, e deve
sempre ter a coragem de concordar com o que considerar certo e
discordar do que considerar que esteja errado. Deve agir com
conhecimento e desarmado de ódios ou rancores.
É isso que a população deve observar e cobrar de seus
representantes. Aliás, a população precisa freqüentar as
reuniões dos Legislativos Municipais, para saber como estão se
comportando os "representantes do povo".
"O papel do vereador" que é o de legislar e
deliberar leis resume-se a fazer mil requerimentos solicitando
obras e outras formas de se promover e esquece totalmente de
fiscalizar de onde vem o dinheiro e se este está sendo aplicado
de forma positiva pelo Poder Executivo.
Diariamente ouve-se reclamações de má aplicação dos
recursos públicos pelo governo municipal. Ouve-se, inclusive,
vereadores, tentando se promoverem, denunciando uma
irregularidade ou outra. Embora não sabedores, mas esses mesmos
vereadores não estão conscientes de seu real papel perante o
Legislativo, uma vez que, ao invés de denunciar, deveriam
fiscalizar o Executivo. Historicamente, há registros de
vereadores analfabetos ou semi-analfabetos que foram presidentes
da Câmara. Ouvimos muitas histórias de vereadores que
escutam/escutavam a leitura através de seus pares e depois
assinavam projetos baseado nisso. Tal procedimento nos permite
argumentar até que ponto um documento assinado por quem não
sabe ler tem validade.
Há também, entre as pessoas, a cultura de que o
"vereador não serve pra nada", por isso votam em
qualquer um, principalmente naqueles que fazem da campanha
eleitoral uma grande feira, onde o voto é a principal
mercadoria e vale o preço que o cliente pedir.
O eleitor, principalmente os da camada mais pobre da cidade,
já se prepara com antecedência para a grande feira. Guardam
papel de energia, água, receitas de remédio e outros produtos
que atraem políticos e iniciam a negociação. Esse eleitor
não se preocupa com o perfil intelectual do candidato, mas com
o que vem de dentro do bolso. Esta questão precisa ser
repensada, afinal, os recursos públicos estão aí para serem
revertidos para benefícios da população inteira e não para
servir de trampolim, a título de propinas, para a ascensão de
políticos.
Enfim, ao vereador cabe e falta exercer seu principal papel:
fiscalizar os recursos públicos do município. Precisamos de
vereadores atuantes, dispostos a romperem com os costumes
persistentes de subserviência e vício. O vereador deve agir
sem apego a benefícios pecuniários. Ele deve usar, com
disposição, a prerrogativa de denunciar possíveis fraudes
envolvendo dinheiro público, sobretudo pela tendência
descentralizadora existente.
Vereador consciente contribui efetivamente para o
desenvolvimento humano do seu município, ajudando o povo a pensar
e se organizar.