11/10/08
O ÓBVIO ULULANTE
Guaracy de Castro NOGUEIRA
Expressão genial criada pelo famoso dramaturgo Nelson Rodrigues. Dizia que havia muita gente que morava no Rio de Janeiro e jamais tinha visto o Pão de Açúcar. Não enxergavam o óbvio ululante. O pão de Açúcar era o óbvio ululante.
O mesmo aconteceu em Itaúna, nas últimas eleições. A eleição do Eugênio Pinto figura um tanto mitológica, era o óbvio ululante. Havia necessidade transparente da união das oposições para derrotá-lo. Era a tese aceita por todos. Sua vitória, sem esta união, era o óbvio ululante. Todo mundo sabia que isto ia acontecer.
E o que aconteceu? Os fatos estão aí com sua transparência para análise dos observadores isentos. Concluir que a derrota das oposições foi uma surpresa é não enxergar o óbvio ululante. E como agiram as lideranças? Nada fizeram, porque ficou evidente que não temos liderança.
O verdadeiro líder aponta o caminho a seguir, mostra os obstáculos a serem transpostos, abre mão de suas teses quando vê que os liderados não estão dispostos a aceitá-las. Busca humildemente o consenso, sabe que em política a única coisa coerente é a vitória. Mas, para alcançá-la há que ter uma postura digna colocando os interesses maiores da comunidade, acima dos interesses de seu partido e dos seus próprios. Assim os liderados passam a respeitá-lo, quando notam nas suas atitudes e palavras muita sinceridade, respeito à verdade e aos que o acompanham. Nada de encurtar caminhos, passar por atalhos sugeridos pela paixão, por antipatias que nada constroem, escondendo nos artifícios e nos sofismas a verdade, pintando com cores não reais o caminho a ser seguido. Companheiros experientes não são ouvidos. O falso líder pinta membros de outros partidos interessados em acordo com qualidades que não possuem, acusa-os, põe neles defeitos que não têm, ou se os têm, porque não há pessoas perfeitas, exagera na sua apreciação. Chega a utilizar pesquisas obtidas através de agência de sua preferência, mas que não foram feitas sob consenso, o que as coloca sob suspeição. Apresenta candidatos frutos de suas relações familiares e pessoais que não conseguem o aplauso dos liderados, enfim dorme sob suas propostas, enquanto os demais interessados em acordo manobram nos bastidores e vão atrás das legendas de aluguel tecendo acordos que afinal frustram a todos.
Foi o que aconteceu em Itaúna, onde temos treze legendas de aluguel com seus respectivos donos. Algumas entrando em coligação com os partidos mais ou menos tradicionais, como PMDB, PT, PSDB, DEM e PPS, fortalecem o grupo, mas a maioria delas, PV, PC do B, PSDC, PRTB, PMN, PSB, PTB, PR, PSL, PTC, PDT, PP e PSC, que têm donos e negociam o apoio$, servindo, na maioria das vezes para engrossar chapas de vereadores e atender exigências da lei eleitoral.
A realidade confirma nossa afirmação. O PV, do Osmando, na coligação "Itaúna em 1º Lugar" filiou 13 pessoas que conseguiram 2.111 votos, não elegendo ninguém. O PC do B filiou 5 pessoas; o PMN, 10 e o PSB, 5, totalizando 20 eleitores, na coligação "Itaúna Para Todos", a serviço do Eugênio Pinto, obteve 4.138 votos, mas não elegeu ninguém. O PP filiou 7 pessoas; o PTD, 9 e o PTC, 2, totalizando 18 eleitores, na coligação "Mudança com Responsabilidade", a serviço da Gláucia Santiago, obteve 3.160 votos, mas não elegeu um vereador sequer. O PSC- Partido Social Cristão, do candidato lanterna Marcos Penido, que não disse para que veio, obteve para prefeito 3.518 votos (6,94%) e seus 12 vereadores só 997 votos, com 200 de legenda, um total de 1197, vale dizer 2.35% dos votos para a Câmara. O vereador mais votado de sua chapa obteve 305 votos e o menos votado, apenas 5 votos. Uma média de 83 votos para cada um! Ouvi, mas não dei crédito de pessoa bem informada, que o PT cooptou Marcos Penido e fez dele um aliado necessário para dividir a oposição. Em política tudo é possível, se foi verdade ele cumpriu bem o seu papel com os seus minguados 3.500 votos, mas suficientes para atingir o objetivo.
Os convidados para entrar nessas legendas de aluguel, numa linguagem um pouco chula, servem apenas de bucha para canhão: lutam, pedem voto para os donos da legenda, sem a mínima possibilidade de eleição. Descobri esta verdade quando desisti de minha candidatura pelo PV. Se obtivesse nestas eleições 3.006 votos não me elegeria porque precisaria de 3.007, para alcançar a legenda de 5.118 votos, pois o PV só conseguiu 2.111 legendas e precisaria de 5.118 para fazer um único vereador.
Conclusão: os partidos são uma mentira. Fidelidade partidária um registro no papel sem o mínimo valor. Pelé disse uma vez que o brasileiro não sabe votar e quase apanhou. Parece que o eleitor itaunense dá razão ao craque Pelé, bom de bola e bom de opinião. Elegemos 10 ilustres cidadãos para a Câmara, dos quais três foram reeleitos. Apenas 4 nasceram em Itaúna. Os demais, "seis itaunenses de coração", nasceram 2 em Itaguara, 1 em Divinópolis, 1 em Rio Manso, 1 em Jequitinhonha e 1 em Itapecerica. Não fazem jus à Cidade Universitária e Educativa: um tem ensino fundamental incompleto, três têm ensino médio incompleto, dois têm ensino fundamental completo, dois têm ensino médio completo, e dois têm curso superior completo. Tudo muito lógico, inclusive dois têm deficiências que merecem respeito e ajuda.
Está na hora de um balanço de lucros e perdas. Para mim o grande vitorioso foi o Osmando; o grande derrotado, o deputado Neider Moreira; a grande sacrificada, minha ilustre amiga candidata Gláucia Santiago, o grande impostor, o candidato Marcos Penido e o grande beneficiado e reeleito, o obediente moço Eugênio Pinto, perdedor de fato porque só obteve 38,26% dos votos e 61,74% dos eleitores o rejeitaram. Caso houvesse segundo turno em Itaúna estaria fulminado! O grande consolo, a vitória do PT em Betim e, possivelmente, em Ipatinga, deixando-nos a esperança de que os "estrangeiros" sejam recrutados para voltar "ao ninho antigo". Temos um presságio: vai acontecer com Neider o que aconteceu com o "fenômeno" Marcos Lima, que aqui apareceu como avalista dos Pintos. Sabemos que o suplente de deputado pelo PMDB teve muitos votos lá fora por algum tempo, até que sua estrela deixou de brilhar! Acorde deputado Neider! Você é barranqueiro do São João.
Deixo para os entendidos em contabilidade descobrir quem traiu, se alguém levou, e quanto, afinal ninguém faz milagre na política sem ajuda do bolso...
A eleição enojou, a festa terminou, a farra acabou e agora José?