O ÓBVIO ULULANTE
Guaracy de Castro NOGUEIRA
Expressão genial criada pelo famoso
dramaturgo Nelson Rodrigues. Dizia que havia muita gente que morava no Rio
de Janeiro e jamais tinha visto o Pão de Açúcar. Não enxergavam o óbvio
ululante. O pão de Açúcar era o óbvio ululante.
O mesmo aconteceu em Itaúna, nas últimas
eleições. A eleição do Eugênio Pinto figura um tanto mitológica, era o
óbvio ululante. Havia necessidade transparente da união das oposições
para derrotá-lo. Era a tese aceita por todos. Sua vitória, sem esta
união, era o óbvio ululante. Todo mundo sabia que isto ia acontecer.
E o que aconteceu? Os fatos estão aí com sua
transparência para análise dos observadores isentos. Concluir que a
derrota das oposições foi uma surpresa é não enxergar o óbvio ululante.
E como agiram as lideranças? Nada fizeram, porque ficou evidente que não
temos liderança.
O verdadeiro líder aponta o caminho a seguir,
mostra os obstáculos a serem transpostos, abre mão de suas teses quando
vê que os liderados não estão dispostos a aceitá-las. Busca humildemente
o consenso, sabe que em política a única coisa coerente é a vitória.
Mas, para alcançá-la há que ter uma postura digna colocando os interesses
maiores da comunidade, acima dos interesses de seu partido e dos seus
próprios. Assim os liderados passam a respeitá-lo, quando notam nas suas
atitudes e palavras muita sinceridade, respeito à verdade e aos que o
acompanham. Nada de encurtar caminhos, passar por atalhos sugeridos pela
paixão, por antipatias que nada constroem, escondendo nos artifícios e nos
sofismas a verdade, pintando com cores não reais o caminho a ser seguido.
Companheiros experientes não são ouvidos. O falso líder pinta membros de
outros partidos interessados em acordo com qualidades que não possuem,
acusa-os, põe neles defeitos que não têm, ou se os têm, porque não há
pessoas perfeitas, exagera na sua apreciação. Chega a utilizar pesquisas
obtidas através de agência de sua preferência, mas que não foram feitas
sob consenso, o que as coloca sob suspeição. Apresenta candidatos frutos
de suas relações familiares e pessoais que não conseguem o aplauso dos
liderados, enfim dorme sob suas propostas, enquanto os demais interessados
em acordo manobram nos bastidores e vão atrás das legendas de aluguel
tecendo acordos que afinal frustram a todos.
Foi o que aconteceu em Itaúna, onde temos
treze legendas de aluguel com seus respectivos donos. Algumas entrando em
coligação com os partidos mais ou menos tradicionais, como PMDB, PT, PSDB,
DEM e PPS, fortalecem o grupo, mas a maioria delas, PV, PC do B, PSDC, PRTB,
PMN, PSB, PTB, PR, PSL, PTC, PDT, PP e PSC, que têm donos e negociam o
apoio$, servindo, na maioria das vezes para engrossar chapas de vereadores e
atender exigências da lei eleitoral.
A realidade confirma nossa afirmação. O PV,
do Osmando, na coligação "Itaúna em 1º Lugar" filiou 13
pessoas que conseguiram 2.111 votos, não elegendo ninguém. O PC do B
filiou 5 pessoas; o PMN, 10 e o PSB, 5, totalizando 20 eleitores, na
coligação "Itaúna Para Todos", a serviço do Eugênio Pinto,
obteve 4.138 votos, mas não elegeu ninguém. O PP filiou 7 pessoas; o PTD,
9 e o PTC, 2, totalizando 18 eleitores, na coligação "Mudança com
Responsabilidade", a serviço da Gláucia Santiago, obteve 3.160 votos,
mas não elegeu um vereador sequer. O PSC- Partido Social Cristão, do
candidato lanterna Marcos Penido, que não disse para que veio, obteve para
prefeito 3.518 votos (6,94%) e seus 12 vereadores só 997 votos, com 200 de
legenda, um total de 1197, vale dizer 2.35% dos votos para a Câmara. O
vereador mais votado de sua chapa obteve 305 votos e o menos votado, apenas
5 votos. Uma média de 83 votos para cada um! Ouvi, mas não dei crédito de
pessoa bem informada, que o PT cooptou Marcos Penido e fez dele um aliado
necessário para dividir a oposição. Em política tudo é possível, se
foi verdade ele cumpriu bem o seu papel com os seus minguados 3.500 votos,
mas suficientes para atingir o objetivo.
Os convidados para entrar nessas legendas de
aluguel, numa linguagem um pouco chula, servem apenas de bucha para canhão:
lutam, pedem voto para os donos da legenda, sem a mínima possibilidade de
eleição. Descobri esta verdade quando desisti de minha candidatura pelo PV.
Se obtivesse nestas eleições 3.006 votos não me elegeria porque
precisaria de 3.007, para alcançar a legenda de 5.118 votos, pois o PV só
conseguiu 2.111 legendas e precisaria de 5.118 para fazer um único
vereador.
Conclusão: os partidos são uma mentira.
Fidelidade partidária um registro no papel sem o mínimo valor. Pelé disse
uma vez que o brasileiro não sabe votar e quase apanhou. Parece que o
eleitor itaunense dá razão ao craque Pelé, bom de bola e bom de opinião.
Elegemos 10 ilustres cidadãos para a Câmara, dos quais três foram
reeleitos. Apenas 4 nasceram em Itaúna. Os demais, "seis itaunenses de
coração", nasceram 2 em Itaguara, 1 em Divinópolis, 1 em Rio Manso,
1 em Jequitinhonha e 1 em Itapecerica. Não fazem jus à Cidade
Universitária e Educativa: um tem ensino fundamental incompleto, três têm
ensino médio incompleto, dois têm ensino fundamental completo, dois têm
ensino médio completo, e dois têm curso superior completo. Tudo muito
lógico, inclusive dois têm deficiências que merecem respeito e ajuda.
Está na hora de um balanço de lucros e
perdas. Para mim o grande vitorioso foi o Osmando; o grande derrotado, o
deputado Neider Moreira; a grande sacrificada, minha ilustre amiga candidata
Gláucia Santiago, o grande impostor, o candidato Marcos Penido e o grande
beneficiado e reeleito, o obediente moço Eugênio Pinto, perdedor de fato
porque só obteve 38,26% dos votos e 61,74% dos eleitores o rejeitaram. Caso
houvesse segundo turno em Itaúna estaria fulminado! O grande consolo, a
vitória do PT em Betim e, possivelmente, em Ipatinga, deixando-nos a
esperança de que os "estrangeiros" sejam recrutados para voltar
"ao ninho antigo". Temos um presságio: vai acontecer com Neider o
que aconteceu com o "fenômeno" Marcos Lima, que aqui apareceu
como avalista dos Pintos. Sabemos que o suplente de deputado pelo PMDB teve
muitos votos lá fora por algum tempo, até que sua estrela deixou de
brilhar! Acorde deputado Neider! Você é barranqueiro do São João.
Deixo para os entendidos em contabilidade
descobrir quem traiu, se alguém levou, e quanto, afinal ninguém faz
milagre na política sem ajuda do bolso...
A eleição enojou, a festa terminou, a farra
acabou e agora José?